domingo, 31 de março de 2019

Sim, senhor!

As decisões recentes em relação a política externa colocam em relevância a teoria de Florestan Fernandes presente em “A Revolução Burguesa no Brasil”, publicado pela primeira vez em 1975. O sociólogo, resgatando a nossa trajetória histórica desde a abolição da escravidão, em 1888, e a proclamação da nossa República, em 1889, aponta para um país cujo o seu desenvolvimento econômico ocorreu a partir de uma orientação periférica na ordem global.

Essa constatação empírica se mostra evidente na atualidade quando se analisa, por exemplo, a exportação cafeeira. Embora o nosso país lidere o volume de colheita e de exportações do grão verde, na hora de faturar com o commodity aparece a Alemanha (maior entreposto de grãos verdes de café do mundo). São eles que aparecem em segundo entre os responsáveis pela importação do café brasileiro. A Itália vem em seguida. É outra que também fatura com o commodity numa espécie de terceirização do ganho.

A constatação de um capitalismo periférico se percebe com o fato de que boa parte da importação dos grãos brasileiros pela Alemanha é revendida para outros países europeus e com valor bem superior. Poucos produtores brasileiros conseguem levar a sua marca para os consumidores da Europa. Alguns apontam a capacidade logística dos alemães como fator fundamental, o que também é verdade. Mas, sem querer entrar nos pormenores desse tipo de negócio, a intenção é exemplificar essa característica periférica da economia brasileira.   

A sociologia do vira-lata

As razões que nos levam a essa condição são, em parte, explicadas na obra de Florestan Fernandes. Mas as razões que nos mantém “presos” a essa ordem secundária têm recebido novas contribuições para interpretação. Embutir uma mentalidade de inferioridade numa sociologia do vira-lata ao longo do último século parece ter sido elemento fundamental, segundo o sociólogo Jessé de Souza, em seu polêmico livro “A elite do atraso”, publicado em 2017.

A charge ironiza relação de governo Bolsonaro com o de Trump (Imagem: Reprodução/Catraca Livre)



O fato é que essa germinação de ideias produziu frutos e chegaram ao poder. O atual governo tem mostrado a sua vitalidade para a subserviência ao imperialismo norte-americano numa ideologização chula, sem contrapesos. A entrada no Brasil de cidadãos dos Estados Unidos, da Austrália, do Canadá e do Japão sem a necessidade de visto, medida decretada pelo presidente Jair Bolsonaro de forma unilateral (ou seja, sem a contrapartida desses países), é tão somente um ato que simboliza a mentalidade periférica que guia o centro do governo. Essa semana o Congresso se mobilizará para derrubar o decreto, mas não retirará o simbolismo servil do atual governo.

O conjunto de medidas já anunciadas (uso comercial do centro de lançamento espacial de Alcântara, no Maranhão, sem acesso a tecnologia estadunidense, por exemplo) ou ensaiadas pelo governo brasileiro aponta para uma política externa conduzida por acordos unilaterais em contraposição a multilateralidade, que colocava o país numa posição de maior protagonismo – ainda que diante de suas limitações enquanto força econômica e política – no contexto internacional.  

No retrovisor

Ao se apegar a um retrogradismo, o governo brasileiro abraça lutas inexistentes e tentar exorcizar fantasmas do passado. A guerra comercial entre Estados Unidos e China em nada tem a ver com os tempos de Guerra Fria. Como disse o jornalista Clovis Rossi, em seu artigo na Folha de S. Paulo no último dia 21 de março, a China, ao contrário da antiga União Soviética, não quer vender o comunismo ao mundo e sim fazer negócios.

Mais um capítulo dessa mentalidade servil poderá ser vista, em breve, com a tese lançada por Washington de que é preciso barrar o avanço da Huawei, a empresa chinesa líder no 5G, a nova fronteira da tecnologia da informação. O perigo vendido por Washington é que os chineses usarão seu sistema 5G como cavalo de Troia, pirateando informações sensíveis dos países que utilizarem sua tecnologia. Reino Unido, Alemanha, Índia e Emirados Árabes dão sinais que não comprarão a versão. Em relação ao governo brasileiro, que ainda vê fantasmas vermelhos em cada esquina, não me parece uma tarefa difícil deduzir uma resposta.

Se, no passado, muitos acreditavam numa hegemonia norte-americana diante do fim da polarização com a União Soviética, o que se viu com a globalização foi a ascensão de outros mercados dentro da lógica capitalista. A China foi capaz de se organizar dentro do jogo do capital para uma crescente polarização dentro das regras capitalistas – essa construção ainda está em curso.

Mas, enquanto os monstros do passado são alimentados, ganha fôlego um projeto de pouco autonomia e alinhamento incondicional a um dos lados da disputa capitalista. Com o risco, inclusive, de se aventurar em apoio logístico a empreitadas militares. O governo cumpre à risca a sua missão servil reforçando a cultura do “vira-lata” sem, ao menos, buscar contrapesos para explicar a sua escolha que não é pragmática.



Artigo publicado originalmente no portal de notícia Alfenas Hoje

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O papel do jornalismo em um cenário fluído

A sociedade pós-industrial, marcada por um caráter fluído das relações, tem provocado uma reflexão intensa sobre o reposicionamento das instituições e dos diferentes segmentos profissionais. Muito além da discussão sobre o fim ou não de plataformas tradicionais do jornalismo, o próprio papel social da imprensa nesse cenário fluído é alvo de análise.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman estruturou o conceito de modernidade líquida para descrever essa nova sociedade marcada pela fluidez e o aspecto volátil. O parâmetros concretos se diluem, criando novos padrões referenciais. É nesse cenário de incertezas que o jornalismo tenta se reconstruir.


O fortalecimento das redes sociais nos últimos anos tem provocado uma verdadeira revisão do papel da imprensa, ora retirando o seu protagonismo na disseminação da informação, ora colocando em xeque a sua própria legitimidade enquanto agente propagador.

Essa sociedade em rede, como definiu o sociólogo espanhol Manuel Castells, permite um modelo de contestação e de interatividade em que o consumidor de informação passivo deixou de existir. É nesse contexto que o sistema jornalístico linear e centralizado, característico do século XX, deu lugar a um modelo descentralizado de produção noticiosa.

Os desafios da prática

Mas qual é o papel do jornalista profissional e da imprensa diante dessa sociedade líquida? O pesquisador e jornalista Carlos Castilho define o jornalista como um especialista no manejo e contextualização de informações, dados e notícias. Essa definição ajuda a recolocar o profissional de imprensa como referência na divulgação da informação com qualidade e confiabilidade.
Se por um lado o aspecto fluído dessa nova sociedade em rede permite uma generalização da atividade, em que o consumo da informação se dá de formas múltiplas e de fontes amadoras, o processo jornalístico confere confiabilidade reposicionando o jornalismo enquanto elemento referencial para o consumo da informação.

Assim, muito além do perigoso campo do imediatismo, em que se concorre com agentes propagadores da informação a partir da ausência de padrões técnicos e científicos, a adoção dos critérios jornalísticos de apuração e tratamento ético/profissional do fato, em busca da credibilidade, se tornam artifícios fundamentais para a sobrevivência do jornalismo.

 Este artigo foi publicado pelo Observatório da Imprensa. Clique aqui e confira!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A demissão de Waack e a origem escravocrata

A demissão do jornalista William Waack pelas Organizações Globo expõe mais uma página de uma sociedade mergulhada na sua origem escravocrata, cujo os efeitos têm sido levado à tona não somente em aspectos étnicos-raciais mas também de classes. Entrarei nesse segundo tópico no decorrer deste texto.

Por anos a sociedade brasileira – e também internacional - cultivou e semeou a ideia de uma nação caracterizada pela tolerância racial e pelo convívio harmonioso entre as diferentes origens étnicas. Tal pensamento foi propagado pelo discurso científico da Democracia Racial, de Gilberto Freyre, publicado na célebre obra “Casa-Grande & Senzala”, lançada na década de 30.

"Glamorizada", além da sua real contribuição, a tese serviu para a manutenção de um sistema velado de racismo com origem na colonização e ao comodismo e desencorajamento de qualquer movimento de resistência à realidade. Resultado disso, por exemplo, é a tardia criminalização do racismo somente em 1989 (Lei n˚ 7.716) – bem recente do ponto de vista de nossa trajetória histórica.
O jornalista Willian Waack atuava como âncora do Jornal da Globo

Apesar da contundente desconstrução desse pensamento - de que há uma perspectiva de tolerância racial - pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) ao elaborar a teoria do Mito da Democracia Racial na década de 60, a falsa perspectiva permanece encrustada no imaginários social de boa parcela de nossa sociedade. Exemplo disso é o recorrente argumento da meritocracia quando à discussão é cota racial para acesso às universidades. Mas esse será tema para post futuro.

O episódio Waack é simbólico, embora recorrente. O mundo virtual tem escancarado a efetividade da teoria de Florestan Fernandes com noticiários sobre racismo – ou mesmo por injúria racial – envolvendo famosos ou não famosos. Haja vista o ataque sofrido pela inocente Titi, filha adotiva do ator Bruno Gagliasso e da atriz Giovanna Ewbank. Ou o espancamento do ator negro Diogo Cintra, no Terminal Parque Dom Pedro 2˚, em São Paulo.
 
Símbolo da intelectualidade orgânica



A exposição do caso Waack desmascara um símbolo da intelectualidade orgânica a serviço do pensamento liberal. Por conta disso é relevante a discussão em torno da sua simbologia, uma vez que o mesmo consolidou-se como expressão de uma ideologia defendida explicitamente, abandonando a tese da neutralidade na apresentação do noticiário. Foi dessa forma que implantou o seu estilo à frente do Jornal da Globo.

Não se trata de uma relação causal, mas o paralelo entre a intolerância racial e o ideário econômico de classe repousam na origem escravocrata da sociedade brasileira. Nesse segundo, pelo menos, é o que sustenta o sociólogo Jessé Souza em seu novo livro “A Elites do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato”, publicado em 2017.

Os problemas enfrentados pelo país não estão na herança portuguesa de um Estado Patrimonialista – discurso dominante até hoje -, mas na origem escravocrata. Para isso, o autor tenta reinterpretar a história do Brasil a partir do zero, como definiu em entrevista à Revista Cult.

Dessa forma, Waack não é um simples caso a mais no histórico deprimente do pensamento racista, mas representante conceitual de uma classe social dominante. Haja vista o papel social atribuído como expressão da intelectualidade orgânica na grande mídia. Por esse conceito entenda a perspectiva teórica do italiano Antonio Gramsci (1891-1937) em relação a hegemonia burguesa.


Outros casos


Waack não foi o primeiro, mas certamente não será o último intelectual orgânico a ter suas “vísceras ideológicas” expostas. Basta lembrar outro respeitado nome da intelectualidade orgânica liberal e não menos agressivos nas suas convicções em detrimento da neutralidade jornalística. Sobre esse aspecto, recomendo a leitura de meu último post.

Me refiro ao jornalista Boris Casoy que, assim como Waack, foi pego, bem à vontade, expressando a sua real visão de mundo, de origem classista e, a partir da leitura de Jessé Souza, de origem elitista e escravocrata. Casoy, na época, desabonou a importância dos garis numa condição hierárquica desprezível, segundo o seu pensamento.

Tal fato lhe rendeu uma condenação judicial para o pagamento de indenização ao gari ofendido. Mas, muito mais evidente, é a exposição de um símbolo da intelectualidade orgânica com a sua real visão de mundo, de origem escravocrata. Waack e Casoy expressam um jeito de perceber o mundo – seja na organização social ou econômica – e, de alguma maneira, validam a tese de Jessé Souza.

Esse artigo foi publicado originalmente no portal de notícias Alfenas Hoje

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A soberania no ralo

Uma fala, exibida em rede nacional no final de novembro, é a síntese de um pensamento e uma prática que, historicamente, se apodera de nossa política. E, que encastelada nos últimos anos, resolveu apresentar-se de maneira explícita, sem o prudente receio de “rasgar” a nossa Constituição Federal.

Vamos ao fato: no dia 21 de novembro de 2016, a edição do Jornal Nacional (TV Globo) trouxe uma reportagem sobre a reunião do presidente Michel Temer (PMDB) com os integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – o chamado “Conselhão”.




A reportagem fecha, como uma espécie de “coroa de flores” sintetizadora da mensagem que se propõe valorizar, com o “conselho” de Nizan Guanaes, empresário do setor de comunicação. Não é por acaso que são reservados 45 segundos a fala do empresário, a qual reproduzo, na íntegra, a seguir:

“Já que o governo ainda não tem índices de popularidade altos, aproveite, presidente. A popularidade é uma jaula. Ninguém faz coisas contundentes com altos níveis de popularidade. Então, aproveite que o senhor ainda não tem altos índices de popularidade e faça coisas impopulares que serão necessárias e que vão desenhar este governo para os próximos anos. Aproveite sua impopularidade. Tome medidas amargas. Aliás, este é o grande desafio das democracias do mundo. Como fazer coisas impopulares?” Confira aqui

Ora, ao desafiar a opinião popular e propor que o poder político seja utilizado como um "trator", o representante das forças econômicas demonstra o mais puro pensamento aristocrático. Expõe o que costuma-se camuflar: o desprezo pela massa e a sua condição de agente ativo no processo democrático. As vozes das ruas devem, agora, ser ignoradas.

O discurso revela inversão de valores à medida que popularidade torna-se “jaula” (nas palavras de Guanaes), elemento restritivo das ações que atendem aos interesses da elite econômica. Nada mais reacionário do que defender a impopularidade como virtude para que se enfrente o desejo da massa – fazendo valer a força se necessário.

A “demonização” de governos populares na América Latina – facilmente tachados como populistas – tornou-se recorrente em parte significativa da mídia hegemônica, reprodutora do pensamento liberal e aristocrático. Se recorrermos a nossa história encontraremos a figura de Getúlio Vargas como ápice desse enfrentamento.

Nem mesmo teorias reducionistas quanto a participação popular são capazes de abrigar, sem margens às contestações, a legitimidade do poder político do atual governo. O sociólogo alemão Joseph Schumpeter, por exemplo, rompeu com a ideia de democracia como soberania popular, reduzindo a participação das massas na política ao ato de produção de governos (resumindo-se ao voto).

É preciso enfatizar os questionamentos quanto a legitimidade do atual governo por parte significativa da sociedade – não somente as correntes ideológicas, mas sobretudo o acolhimento dessa tese por figuras que são ícones no meio jurídico. O ex-ministro Joaquim Barbosa, do STF (Supremo Tribunal Federal), é um dos críticos dessa legitimidade. (Clique aqui e leia)

Não se pretende aqui fechar essa discussão em particular com um raciocínio raso, mas demonstrar que a impopularidade, associada a ausência de um consenso jurídico em meio a "trovoadas" de incertezas, seriam elementos mais que satisfatórios para que o zelo pela democracia prevalecesse e fosse condição indispensável para que a força econômica não atropelasse a soberania popular.

Para além do pensamento do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, para qual a democracia só se efetiva com a participação direta dos cidadãos, a nossa Constituição Federal resguarda, em seu artigo 1˚ (parágrafo único), que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

Ou seja, a soberania popular não pode ser apenas instrumento de retórica e extirpada a partir de interesses econômicos classistas e aristocráticos. Em uma democracia, não cabe sobreposição do poder econômico sobre a vontade popular como forma de impor uma verdade que não é absoluta. Se a prática aristocrática sobrepor a soberania popular estaremos, por consequência, rasgando a nossa Constituição.


Este artigo foi publicado no portal de notícias Alfenas Hoje. Confira aqui!

domingo, 1 de janeiro de 2017

Não somos máquinas!

A cobertura jornalística da tragédia aérea ocorrida em Medellín, na Colômbia, no último dia 28/11, trouxe aspectos incomuns, mas enriquecedores – tanto pessoais quanto para análise do ofício. Foram mais de 70 mortos, incluindo a delegação da Chapecoense, tripulantes e vários profissionais da imprensa.
A veiculação jornalística relativa às mortes no Brasil, das mais diversas origens, tem sido recorrente dentro de uma abordagem, muitas vezes, numérica e distanciada da “humanização”. Acostumados a um produto frio – repleto de dados –, os leitores e/ou telespectadores carecem do retorno do jornalismo humanizado, pelo qual as histórias dos personagens enriquecem a notícia e fornecem elementos, além dos dados frios, para uma melhor percepção e interpretação do fato. Isso foi possível no caso em questão, diferente da prática comum no jornalismo contemporâneo.

Só para se ter uma ideia da dimensão dessa triste realidade, em que jornalistas são submetidos por ofício a um contato cotidiano, vejamos os dados estatísticos apresentados pela ONU (Organização das Nações Unidas) em Genebra, na Suíça, em maio deste ano. A taxa de mortes oriundas de acidentes de trânsito no Brasil é de 23,4 para cada 100 mil habitantes. Isso coloca o Brasil na quarta colocação na América, atrás somente de Belize, República Dominicana e Venezuela.
Não obstante, as mortes causadas por homicídios também representam uma parcela significativa do noticiário e, por consequência, ocupam boa parte da rotina profissional dos jornalistas brasileiros. Segundo dados do Atlas da Violência 2016, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a taxa de homicídios no Brasil chegou a 29,1 mortes por 100 mil habitantes. Pelo menos 59.627 pessoas sofreram homicídio no Brasil em 2014.
Nenhuma morte se sobrepõe a qualquer outra em termos de valor, mas guarda, evidentemente, elementos classificatórios na escala técnica de seleção e priorização da notícia. A simples categorização enquanto acidente aéreo já seria um desses elementos que garante a priorização enquanto fato noticioso.
Entre choros e lágrimas
A cobertura jornalística, sobretudo televisiva, mostrou a dificuldade de vários profissionais em executar a sua missão. O experiente repórter Ari Peixoto não conteve a emoção e chorou durante um link ao vivo no jornal Hoje (TV Globo), exibido no dia 1˚ de dezembro. Dois dias depois, durante a transmissão do funeral na Arena Condá, o repórter esportivo Eric Faria, da TV Globo, também não conteve a emoção.
Outra cena que chamou a atenção foi o abraço dado por dona Ilaídes, que perdeu o filho (o goleiro Danilo) no desastre, no repórter Guido Nunes, do SporTV, durante uma entrevista ao vivo. Outros exemplos seguiram no decorrer da semana, envolvendo Galvão Bueno e Fernanda Gentil, que – mesmos no estúdios – se viram “traídos” pela emoção.
Recorri a todo esse histórico para refletir sobre alguns conceitos que percorrem a atividade jornalística. Entre os quais, a imparcialidade. O sociólogo alemão Max Weber, ao teorizar sobre a prática científica, abordou a questão da neutralidade. Óbvio que não se trata de uma abordagem direta da atividade jornalística, mas produz ensinamentos que nos conduzem para a reflexão da prática em si.
A objetividade como mito
Recorrendo ao historiador Lucien Febvre (1989), e parafraseando-o, é possível lançar a indagação: a cidade da objetividade pode, realmente, vigiar e expulsar, de vez, o cavalo de Tróia da subjetividade? Ou seja, em que medida a nossa construção, enquanto indivíduo, não molda nossos olhares e torna limitada a nossa capacidade plena de isenção diante dos fatos?
A proximidade com as vítimas, seja por laços pessoais ou profissionais, levou, no caso da cobertura do acidente aéreo envolvendo colegas da imprensa, os jornalistas, em alguns momentos, a abandonarem – não no sentido voluntário – a postura impessoal e de isenção. Afinal, não somos máquinas programadas para cumprir o ofício sem qualquer interferência de nossa história de vida, descolados das relações sociais.
A adoção de conceitos como o da objetividade, da neutralidade e da impessoalidade, por meio de técnicas que auxiliam nesse exercício profissional, fazem-se necessários na busca pelo bom jornalismo. Entretanto, não se devem desprezar os elementos da subjetividade da qual somos reféns. Reconhecer a sua existência, negando a ideia de um indivíduo robotizado, é o primeiro passo na busca pela imparcialidade, ainda que esta seja um mito em sua plenitude.
Em termos práticos, o mesmo ensinamento weberiano para a pesquisa científica, separando de forma rigorosa o juízo de fato (o que é) e o juízo de valor (o que deve ser), também vale para o exercício jornalístico. É a partir do reconhecimento dessa tensão que se pode construir um produto final carregado de honestidade em sua produção.
A emoção e o aspecto valorativo na cobertura aqui analisada não invalidaram o trabalho da imprensa televisiva. Pelo contrário, mostrou-se eficiente pela naturalidade, seriedade e honestidade com as quais foi produzida. Afinal, não somos máquinas!
Este artigo foi publicado pelo Observatório da Imprensa. Clique aqui e confira!

domingo, 15 de março de 2015

Manifestações jogam o governo no colo do PMDB


As manifestações nas ruas das principais capitais do País neste domingo tiveram como característica o antigoverno e o antipetismo. Por ora, deixa pelo menos um saldo: o enfraquecimento do governo Dilma Rousseff e a inevitável necessidade de se recompor politicamente.

A presidente Dilma Rousseff saiu de uma eleição apertada. Neste cenário, é natural uma dificuldade maior na governabilidade dado o acirramento ideológico e a “gordura” adquirida pela oposição.

O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e o senador Renan Calheiros
(PMDB/AL) à frente do Congresso Nacional (Foto: Reprodução)
Soma-se a isso o pacote de medidas impopulares com vista ao ajuste nas contas públicas. Não há outra fórmula senão um enrijecimento da base política no Congresso Nacional, justamente o espaço político para que o governo se segure para garantir as medidas necessárias ao ajuste fiscal e evite que se superdimensionem os ecos da oposição.

Pois bem, a inabilidade na articulação política do governo fez do Congresso Nacional um campo minado e perigoso. De maior aliado, o PMDB passou a ser uma pedra no sapato capaz de impedir ações essenciais para que o governo consiga cumprir o pacote de medidas econômicas.

O problema com os peemedebistas, que atingia a Câmara dos Deputados, se ampliou e chegou ao Senado. A devolução da Medida Provisória 669/2015, que reduz a desoneração na folha de pagamento das empresas, pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), foi a “cereja” no bolo de uma crise política, construída pela inabilidade política do atual governo. 

Neste caminho, foram sucessivos e graves erros nessa relação. Como o de lançar candidato a Câmara dos Deputados e ver uma amarga derrota para Eduardo Cunha (PMDB/RJ), que chegou ao comando da Casa sem ter na conta nenhuma obrigação com o PT. Depois, a tentativa de isolar o PMDB, desidratando diversas legendas numa articulação para o surgimento de uma nova legenda, comandada por Kassab. Tentativa naufragada com o decisivo empurrão peemedebista.

As quedas de braços com o PMDB serviram até aqui para mostrar um “chavão antigo” e que muitos lamentam: “Não dá para governar sem o PMDB”.

Desmobilização

Após deixar a eleição numa disputa acirrada e com um potencial oposicionista, pronto para dar o grito, a política econômica adotada desmobilizou setores da base da esquerda – como os movimentos sociais -, mobilizados pelo discurso da campanha eleitoral de 2014. Justamente àqueles que polarizaram a campanha a favor da candidatura petista, oferecendo o contraponto à ortodoxia econômica.

É exatamente esse conjunto de medidas econômicas em busca do ajuste fiscal, o chamado “remédio amargo”, que ajuda a crescer a insatisfação popular e vitamine os discursos antigoverno.

O movimento nas ruas neste domingo trouxe propostas dispersas. Da insana ideia de “golpe” na democracia para estabelecimento de um regime ditatorial ao impeachment. Proposta essa não encampada pelo próprio PSDB, que prefere ver sangrar o governo e, consequentemente, o País. Sem os ajustes, a situação deteriorada da economia só piora e a população sente o reflexo da pior maneira.

De efeito prático o que se vê é o enfraquecimento do governo e a necessidade, agora ainda maior, de se recompor politicamente no Congresso Nacional. Não há outro caminho a não ser negociar com o PMDB de Renan e de Eduardo Cunha. A manifestação serviu, por ora, para aumentar a dependência do PMDB, mesmo que envolto na crise da Operação Lavajato. O protesto jogou Dilma no colo do PMDB. 

Alternativa possível


O retorno à Câmara Municipal dovereador Francisco Rodrigues da Cunha Neto (Prof. Chico/PDT) se tornou inevitável dentro da lógica eleitoral e da pretensão do parlamentar em lançar voos – quem sabe – ao próprio Executivo. Ironicamente, esse não seria o “caminho natural” para quem pretende projeção política rumo a 2016, tendo em vista a possibilidade de permanecer à frente de uma Pasta com apelo social expressivo. 
Prof. Chico retornou à Câmara Municipal de Alfenas após ocupar
a Secretaria Municipal de Habitação (Foto: Alessandro Emergente)
 

Em maio do ano passado, o então líder do Governo deixou o Legislativo em direção a Secretaria de Habitação e, no imaginário de quem observava, em busca da visibilidade política a ser oferecida por uma Pasta de apelo popular. 

No primeiro ano da atual gestão, ainda sob o comando de José Luiz Bruzadelli, a Secretaria de Habitação ofereceu os holofotes ao governo com a inauguração de dois conjuntos habitacionais: no Residencial Vale do Sol e no Jardim São Carlos. No total, 420 famílias comemoraram a oportunidade de saírem do aluguel. Embora os projetos tenham sido iniciados e articulados pelo governo anterior, é inegável o ganho político para quem inaugura. 

Passados os ventos da bonança política, o governo se aquietou e viu 2014 passar em branco. Sem inaugurações expressivas e sem novos projetos robustos. Somente, agora, início de 2015, o governo ensaia um polêmico projeto com a construção de mais 700 casas populares. A proposta ainda nem chegou a Câmara Municipal. Apenas a criação de Zonas Especiais deInteresse Social, que abre brecha para a iniciativa do governo. 

O fato é que, se nos dois primeiros anos, o governo apertou as contas, o que se esperava era, como estratégia política, começar a mostrar feitos próprios a partir da segunda metade da gestão. Mas a realidade tem caminhado longe disso.

O atual governo terminou a primeira metade do mandato alegando “crise financeira” com severos cortes no orçamento, incluindo demissões em setores sensíveis como a educação. Neste contexto, os investimentos continuam apenas no sonho dos mais otimistas. As inaugurações continuam sendo as obras articuladas na gestão anterior, o que não confere ao atual governo o rótulo pleno da realização.

Para piorar, o cenário macroeconômico não é dos mais animadores. A nova política econômica do governo federal, com redução dos gastos públicos, e o risco real de recessão são fatores que corrobam para uma previsão política negativa aos situacionistas.

Assim, defender o governo não é uma tarefa das mais populares, uma vez que cresce a insatisfação pela redução dos gastos públicos municipais na vida das pessoas – redução dos subsídios no Restaurante Popular, corte de despesas na saúde com medicamentos, diminuição de gastos sociais como “aluguel social” e demissões são alguns exemplos.

Sem recursos para investimentos, que dariam a visibilidade política necessária para “vitaminar” o pretenso candidato em 2016, não restou outra alternativa a não ser o retorno a Câmara. Pelo menos é possível se fazer ver em debates públicos e na mídia. O que não era o caminho natural acabou se tornando a alternativa mais viável. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Peças no tabuleiro

Como num jogo de xadrez, cada jogada pode ser decisiva. A vitória de Enéias Rezende (PRTB) para a presidência da Câmara Municipal de Alfenas reforça a estratégia petista para tentar o retorno ao comando da prefeitura em 2016.

Aliado político do ex-prefeito Luiz Antônio da Silva (Luizinho do PT),
Enéias tem agora um "trunfo" nas mãos: o comando da Câmara
Aliado político do ex-prefeito Luiz Antônio da Silva (Luizinho/PT), Enéias contou, nos bastidores, com o apoio do petista, que embora esteja atuando como secretário de Saúde emLimeira (SP) articula sua candidatura para 2016. Nos bastidores, o nome do ex-prefeito é o mais consolidado para a disputa devido a sua “condição natural” de candidato e ao consenso interno em torno de seu nome, tanto dentro do PT quanto do grupo de aliados. 

Enéias pleiteia ser candidato a vice na chapa encabeçada pelo PT e, como “trunfo”, tem parcela considerável do chamado “voto evangélico” por ter na sua base política o apoio de vários pastores de igrejas evangélicas como ficou evidenciado na cerimônia de posse no primeiro dia de 2015.   

Com a presidência da Câmara Municipal, Enéias terá, pelos próximos dois anos, a possibilidade de alavancar a sua pretensão de ser vice numa chapa encabeçada por Luizinho. Com um orçamento anual de R$ 6,2 milhões, o presidente municipal do PRTB terá a visibilidade do cargo e força política para articulações.

Nem tudo são flores

Mas o sucesso político dependerá de sua habilidade a frente da função, uma vez que lideranças contrárias ao PT apostam em eventuais efeitos negativos de sua gestão no comando do Legislativo. Se o cargo oferece visibilidade, também abre brechas para desgastes, tanto na articulação política quanto de imagem.

Uma boa gestão a frente da Câmara Municipal colocará Enéias em vantagem na disputa pela condição de candidato a vice-prefeito, uma vez que enfrenta concorrência por essa condição na própria base de vereadores que o levou a presidência do Legislativo. O presidente do PHS, Evanílson Pereira de Andrade (Ratinho), também se coloca como pré-candidato a vice-prefeito da candidatura petista. O próprio companheiro de partido de Enéias, Paulo Agenor Madeira (Paulinho do Asfalto/PRTB), é outro que não esconde o desejo de ser candidato a vice-prefeito.

O nome do candidato a vice na chapa encabeçada pelo PT deverá ser definido só em 2016, já próximo das eleições, levando em consideração pesquisas de opinião pública e estratégias políticas sobre o melhor perfil. Mas até lá, Enéias tem a chance de colocar seu nome em evidência, tanto nos bastidores quanto junto ao eleitorado.

Derrotas seguidas do governo

Por ora, a vitória de mais um aliado do grupo petista para comandar a Câmara Municipal representa um fato histórico raro: o governo comandado pelo prefeito Maurílio Peloso (PDT) passará os quatro anos de sua gestão sem conseguir eleger seus apoiados para comandar a Casa. Da Mesa Diretora eleita, somente o suplente de secretário, Jairo Campos (Jairinho/PDT), não integra o grupo de oposição. Em 2013, o vitorioso foi Hemerson Lourenço de Assis (Sonzinho/PT)


A eleição de Enéias representa um “foco” de poder nas mãos do PT, mesmo que indiretamente. Através do Legislativo, a oposição pode “travar” pautas de interesse do governo ou até conter estratégias para desgastar a candidatura petista. Tanto que, recentemente, o bloco de oposição rejeitou requerimentos sobre a gestão anterior. Até 2016, muita disputa ainda está por vir.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Cofres cheios!


Os prefeitos mineiros, que tomam posse no dia 1˚ de janeiro, estão de olho em Brasília. Fazem “figa” para que a presidente Dilma Rousseff sancione sem veto o projeto de lei (n˚2.565/2011), aprovado pela Câmara dos Deputados, que define as novas regras para o repasse proveniente dos royalties do petróleo.

Segundo uma projeção feita pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios), os caixas das 853 prefeituras de Minas sairão fortalecidos em mais de meio bilhão de reais no ano que vem caso Dilma não vete a proposta aprovada pelo Congresso.

Alfenas, por exemplo, deve receber, em 2013, R$ 2 milhões. Uma injeção de R$ 1,7 milhão a mais no orçamento. Quantia para prefeito nenhum reclamar.

Só para se ter uma ideia, em 2011, foram repassados para Alfenas R$ 330,2 mil, calculado com base nas regras atuais.

Em meio a crise atual dos municípios, em que o FPM (Fundo de Participação dos Municípios) teve seu pior desempenho em outubro nos últimos seis anos. O repasse para Alfenas caiu 30,7% de setembro para outubro.

A queda é explicada pela redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para os automóveis e eletrodomésticos, medida adotada no final de maio e ainda em vigor. Segundo a CNM, as desonerações causarão um impacto superior a de R$ 1,5 bilhão nos repasses às prefeituras, pelos dados da entidade. 

O FPM é constituído por parte da arrecadação do IPI e do Imposto de Renda (IR) e, por isso, a renúncia fiscal, adotada pelo governo federal para estimular a economia, atingiu “em cheio” os municípios. O Fundo é um “socorro” para as prefeituras que, em sua maioria, vivem com as contas apertadas.

Por tudo isso, a decisão de Dilma é aguardada com ansiedade pela maioria dos futuros prefeitos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Transição de Governo tem início


A transição de Governo, enfim, foi iniciada. Desde o último dia 26 – quando indicou sua equipe para compor a comissão para transição -, o prefeito eleito, Maurílio Peloso (PDT), aguardava o início dos trabalhos.

Esta semana, o atual prefeito Luiz Antônio da Silva (Luizinho/PT) nomeou oficialmente quatro integrantes que fecham a comissão. Os trabalhos já começaram e procedimentos técnicos já foram iniciados, informou um dos integrantes da equipe do atual Governo, o procurador-geral do município, José Ricardo Leandro e Silva.
O prefeito eleito de Alfenas, Maurílio Peloso (PDT), e o atual prefeito, Luiz Antônio da Silva (Luizinho/PT), deram o início oficial a transição de Governo na última terça-feira com a formação de uma equipe técnica
 A lista do atual prefeito inclui ainda o secretário municipal de Governo, Antônio Carlos Esteves Pereira, que foi escolhido para coordenar os trabalhos pela atual gestão. Braço direito do atual prefeito na administração, foi ele o coordenador de campanha do prefeito, que não conseguiu a reeleição.

A lista, pelo Governo, é completada pelo secretário municipal de Administração, Daniel de Carvalho, e pelo coordenador de finanças da prefeitura, Danilo da Silva.

A solicitação oficial para o processo de transição foi feita uma semana após a eleição. Exatamente no dia 16 do mês passado. Os nomes do atual Governo já eram aguardados há cerca de duas semanas.

Os nomes, que já haviam sido indicadospor Maurílio, são José Luiz de Souza Bruzadelli (secretário de saúde durante a gestão do ex-prefeito Hesse Luiz Pereira e ex-diretor da Gerência Regional de Saúde), Miguel Diogo Pereira (servidor municipal aposentado e contador), Paulo Rodrigues de Carvalho (ex-secretário de Saúde e de Educação), Francisco Donizete Vieira Luz (servidor público municipal do setor de informática), Israel Pessoa (funcionário aposentado do INSS), Kátia Geralda Silva Goyatá (psicóloga e pedagoga) e os advogados Gustavo Esteves, Rafael Engel Velano e Paulo Henrique Santos Pereira.

Bruzadelli, um dos nomes da equipe de transição, foi  candidato a vereador e é o primeiro suplente da coligação PSDB/PDT, que elegeu três vereadores. Ele é cunhado do vice-prefeito eleito, Décio Paulino (PR).




domingo, 2 de janeiro de 2011

A imprensa com a barba de molho


Nada ficará impune. Assim acreditam os justiceiros, movidos pelo sentimento da legalidade e da razão. Se a grande mídia aposta na impunidade de suas ações é preciso que reformule sua conduta e suas estratégias.

Pesquisa Ibope, que - entre os meses de julho e novembro - ouviu 2.002 pessoas para compor o seu Índice de Confiança Social (ICS) em 22 segmentos, revela a queda da confiabilidade na imprensa brasileira.

De 71% para 67%, os brasileiros passaram a confiar menos na imprensa brasileira. Despencou da 4ª para a 7ª colocação e acabou ultrapassada pela figura do presidente Lula, que cresceu três pontos e foi a 69% - aí deve-se diferenciá-lo da instituição “governo federal”, que chegou a 59% no ICS. Os números foram revelados por Rafael Motta no Observatório da Imprensa.


Os dados servem como alerta à irresponsabilidade da grande mídia, ávida e com sinais de desespero na defesa de seus pupilos eleitorais. A farra encabeçada por Veja – que escancarou sua linha editorial como meio de persuasão num puro sofismo desvairado – encontra-se cem um repleto antagonismo à linha mestra do jornalismo. O poder do convencimento se dá pela ação fidedigna ao contexto político-social dentro de um prisma na qual a objetividade se faz como instrumento indispensável.

O avanço da internet e o consequente florescimento de canais de discussão e propagação da informação mina a pretensão dos barões da mídia de um controle autoritário e manipulador da informação. O olhar vigilante retira-os o poder da verdade absoluta e da restrição do material informativo como meio privilegiado de uma minoria capitalista.

A insistência na “linha burra” constitui um suicídio desenhado e agora caracterizado metodicamente como elemento sinalizador. Veja, Estadão e Folha de S. Paulo materializam-se como porta-vozes desesperados a serviço de segmentos da sociedade em detrimento da sua função ideal, qual seja o de organismos informativos que compõem a estrutura organizacional de uma sociedade democrática.

Talvez conscientes de uma nova função dentro de um novo contexto organizacional da mídia, a grande imprensa parece incumbida de marcar-se como peças sectárias que compõem uma nova estrutura, na qual os componentes se colocam de forma explicita no tabuleiro social. Exemplo disso é o posicionamento em editorial do Estadão em favor de José Serra na eleição presidencial.

Entretanto, parecem não direcionarem suas ações num patamar de tal racionalidade à medida que operam pela linha apelativa desenfreada e rançosa. Muitas vezes caracterizadas pelo desequilíbrio visível no tratamento da informação.

A grande imprensa está nua e sob os olhares vigilantes da internet. Por isso mesmo, seus protagonistas deveriam se conscientizar da responsabilidade de suas ações, não somente quanto às suas empresas jornalísticas, mas a uma instituição maior: a própria imprensa.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ondas da política




A conquista da presidência da Câmara Municipal de Alfenas pelo PT tranquiliza ainda mais o Governo local. Desde que assumiu o comando do município, o prefeito Luiz Antônio da Silva, o Luizinho, vivencia um cenário de completo domínio político na Casa.

A atual legislatura, que já não demonstrava sinais de resistência às ações do Governo, então comandado pelo antigo prefeito Pompilio Canavez, manteve o tom governista. As poucas vozes que ressoam da oposição não têm força efetiva para mudar as decisões em plenário.

O poder da atual legislatura, “de incomodar” o governo, está, aliás, bem abaixo da antiga, que já era alvo de críticas. Foi naquela época, por exemplo, que o Legislativo protagonizou momentos de tensão política entre os grupos locais: a CPI barrada na Justiça foi o auge do cenário passado.

Até agora a atual legislatura não teve força e nem iniciativa para nenhum ato real que ultrapassasse a linha do discurso acalorado.

Mas porque então a necessidade do comando da Casa, sem a possibilidade de um novo líder com o mesmo vigor na defesa do governo?

A candidatura do atual prefeito em 2012 é dada como favas contadas no meio político. Ao mesmo tempo em que atrai a defesa fervorosa de militantes, também desperta o ódio dos inimigos. É sabedor que não gozam da mesma base de sustentação popular que seu antecessor e a oposição sabe disso.

É exatamente aí que mora o perigo. Atento a todos os movimentos, o mentor governista – encarnado na figura do prefeito - sabe aonde está a sua fragilidade, mas sabe também como neutralizá-la e o caminho para revertê-la.

Neste caminho, a segurança de ter como seu sucessor imediato alguém de confiança, fiel ao projeto encabeçado por ele, é vital.

A presidência em mãos “erradas”, ou não tão confiáveis, poderia trazer incertezas e montar o cenário perfeito para o que os governistas costumam chamar de “conspiração” para o golpe. Criar clima e condições favoráveis para a dança da cadeira seria a obsessão dos adversários.

O atual prefeito sabe que precisa fortalecer a sua imagem. E até aqui parece que as ondas da política conspiram a seu favor. Não foram poucas as recentes e decisivas vitórias: as eleições de Dilma na Presidência da República e de Pompilio na Assembleia, e agora – como a cereja no bolo – a conquista do comando da Câmara de Vereadores.

Nada na política é decisivo ou tão sólido que não possa ser mudado, mas as ondas favorecem o projeto do atual prefeito, que tem agora todo um cenário cenário a seu favor.

Charge: Erick Vizoki

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

E agora José?


A derrota de José Serra abre uma ampla oportunidade para que um dos principais partidos da República possa planejar suas estratégias e mais do que isto: rever até mesmo seus conceitos programáticos. Para onde caminharão os tucanos?

Esta é uma resposta procurada por analistas políticos que arriscam nos palpites. Está em jogo a própria sobrevivência de correntes ideológicas que saíram da disputa fragilizadas.

A acomodação interna das forças políticas dentro do ninho tucano é algo que parece se desenhar. O discurso pós-derrota aponta na direção da renovação como necessidade.

Um cenário propício para lideranças como a de Aécio Neves que terá no Senado sua vitrine. A popularidade no estado de origem e a associação a figura do avô – tem aí a própria capacidade de articulação herdada de Tancredo - o credencia, sem dúvida, ao páreo.

Mas o domínio interno dos paulistas o faz a passar pela artimanha da composição. Somente ao lado de Geraldo Alckimin poderá ousar vôos maiores.

Mas e José Serra? Seu caminho agora parece decisivo para desvendar os rumos do partido. A derrota para a “sombra” de Lula – condição que Dilma deixar de ter a partir de agora – o deixa numa perspectiva desfavorável e pouco confortável para desejar uma nova empreitada rumo ao Planalto em 2014.

É fato que a dinâmica política permite mudanças bruscas e quatro anos é muito tempo para qualquer previsão taxativa neste sentido. Se a liderança de Serra for minimizada internamente, como reação natural a ala progressista perde espaço empurrando a legenda para que assuma uma postura mais liberal, fugindo de vez da sua origem.

A especulação em torno do futuro político de Serra abre o leque de especulações e as possíveis construções políticas para os cenários futuros. Em torno dele passa as mudanças no partido e em toda conjuntura político-partidária do País. Por isso a pergunta permanecerá por algum tempo: E agora José?

sábado, 3 de julho de 2010

Eleição de outubro dá sinal da disputa pela prefeitura em 2012



As eleições de outubro revelam uma verdadeira disputa pela prefeitura em 2012. Sob o manto das candidaturas a deputados, políticos dão o tom da disputa municipal a 2 anos do pleito.

Nos bastidores, vários dos candidatos admitem a intenção de disputar a eleição municipal. Mas, para isso, o resultado das urnas em outubro será decisivo.

Das cinco candidaturas a deputado estadual, pelo menos três pode ter reflexo direto em 2012. Uma delas é a do próprio ex-prefeito Pompilio Canavez (PT) que não pode ser candidato em 2012. As duas vitórias seguidas (2004 e 2008) o tornou inelegível em 2012.

Uma eventual vitória de Pompilio para Assembleia Legislativa fortaleceria a candidatura do atual prefeito Luiz Antônio da Silva (Luizinho/PT), nome natural do grupo político de situação no processo eleitoral de 2012. A dúvida ficaria por conta da definição do candidato a vice na chapa.

Todos concordam que ainda é muito cedo para qualquer definição, mas admitem que o resultado de outubro será fundamental para as articulações visando 2012.

A entrada dos nomes de Eliacim do Carmo de Lourença (PCdoB) – candidato a prefeito em 2008 – e de Décio Paulino (DEM) – candidato a vice-prefeito também em 2008 – aumentaram ainda mais a conotação do jogo eleitoral com vistas a 2012. Os dois anunciaram suas candidaturas a deputado estadual.

Caso não consigam emplacar uma vaga na Assembleia Legislativa, mas obtenham uma votação expressiva em Alfenas, reforçam seus nomes para 2012.

Entre os grupos de oposição há uma tendência para estratégia de união para que haja uma candidatura única para enfrentar a candidato petista. Em novembro do ano passado vários partidos de oposição começaram a se reunir para articular uma coalizão de partidos visando 2012. Mas aos poucos o grupo se dividiu.

No grupo ligado a Marcos José Duarte (Marcão/PPS), candidato a prefeito em 2004 e 2008, a candidatura de Décio é vista com desconfiança. Um resultado expressivo nas urnas poderia ameaçar a condição – tida por eles como natural - de Marcão como cabeça de chapa do grupo que reúne partidos como PPS, DEM, PP, PSB e PV.

Mas, na semana passada, Marcão anunciou apoio a candidatura de Décio e a do vereador Sander Simaglio (PV). Este último para deputado federal. Nos bastidores a intenção é que os candidatos em 2010 manifestassem apoio a Marcão em 2012.

Sander é outro nome, que embora não assuma sua pretensão a candidatura majoritária, admite o fortalecimento de sua imagem política caso obtenha um bom resultado nas urnas. Condição que pode habilitá-lo a uma alternativa para a disputa majoritária em 2012.

Outro nome é o de Eliacim, que poderia polarizar com os petistas o eleitorado com perfil ideológico de esquerda. Candidato a prefeito em 2008 após três mandatos como vereador, o seu nome é naturalmente lembrado para a disputa de 2012 como candidato de terceira via, opondo-se a situação e a oposição tida como conservadora.

Ilustração:
Erick Vizoki

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Nota sobre o Alfenas Hoje


Venho a público manifestar que o portal Alfenas Hoje tem colocado, ao longo de seus 3anos de existência, uma linha editorial cuja a liberdade tem sido uma das característica. Tal proposta, de oferecer informação isenta e com o único comprometimento de levar ao leitor o melhor produto jornalístico possível, alcançou, segundo a nossa análise, um resultado satisfatório, o que pode ser medido pelos acessos e, consequente, repercussão diária do material informativo postado.

Este contexto permite analisar que seguimos o caminho certo ao adotar uma linha editorial na qual se preza a credibilidade do veículo de comunicação. Pois bem, desde o início há uma ampla força contrária de uma camada, cujo envolvimento político-partidário está cristalizado, incumbida em levantar questionamentos “maldosos” e infundados quanto a idoneidade de membros deste portal no intuito de afetar a credibilidade conquistada.

Há que se registrar que a mesma força contrária ao sucesso deste portal, na tentativa inicial de minar diretamente o mesmo (na época que ainda se um constituía como site, em 2007), buscou meios de denegrir diretamente o conteúdo produzido num primeiro estágio de vida do então site. Sem efeito, buscou minar anunciantes.

Nenhuma dessas tentativas surgiram efeito porque, acreditamos, que o portal atingiu o que mais estes temiam: o respeito de seus leitores o que tem crescido a cada dia (o que pode ser comprovado numericamente por meio de registros estatísticos). E este é o reflexo de todo nosso trabalho e esforço na luta pela credibilidade.

Diante de todo este contexto, já se tornou rotina o lançamento de informações falsas e maldosas, incorporadas em “fofocas”, contra o portal e seus membros com o objetivo claro já mencionado.

Concluindo, qualquer que seja o questionamento lançado quanto a credibilidade do portal Alfenas Hoje é fundamental que não se perda de vista o verdadeiro objeto a ser analisado: o conteúdo do próprio portal. É ele o foco real das observações e das quais não nos furtamos ao debate.

Qualquer desvio a esta lógica caracteriza-se, mais uma vez, o intuito claro político-partidário de desvirtuar o verdadeiro debate na intenção que foge ao esclarecimento. Esperamos dos leitores – e não me refiro àqueles cujas intenções são conhecidas – a vigilância constante e metódica do conteúdo do portal o que acreditamos ser salutar para o aprimoramento constante do produto jornalístico oferecido.

Não pretendemos aqui atingir a todos, pois isto incluiria aqueles com intenções duvidosas. Somente pretendemos lançar um ponto de reflexão as pessoas que acompanham este portal e são desprovidos de qualquer intenção negativa em relação ao mesmo.

domingo, 18 de abril de 2010

Momento Extremo



O episódio envolvendo a senadora Marina da Silva e o vereador alfenense Sander Simaglio, ambos do PV, (leia aqui) traduz uma situação antagônica no ponto de vista eleitoral.

As semelhanças no esquerdismo de bandeiras sociais foi o que menos pesou num embate reduzido a um tema especifico no qual os dois representam segmentos tão distintos da sociedade.

O saldo, sem dúvida, ficou invertido. Quem teve a perder foi Marina por não antever uma situação que poderia eclodir na sua corrida pelo mandato presidencial. Aliás mesmo em outras disputas, mas muito mais agora que tem a sua frente todos os segmentos da sociedade clamando posições explicitas.

Mas é fato que jamais imaginaria que a saia justa viria como fogo amigo, dentro de sua base partidária. O fato é que lançar-se em uma disputa tão heterogênea merece definição de posições às vezes que se chocam com uma das correntes de pensamento da sociedade, inevitável postura de risco eleitoral.

“Existem pessoas que fazem de um jeito e eu faço de outro (...) Ser aliada nãos
significa ser aliada em tudo. Eu não vou levantar bandeira como não faço em
relação as demais. Eu sou aliada, mas não sou o movimento em si e sempre faço
questão de diferenciar”.

A frase acima é de Marina e remete a uma lógica incontestável. Por ela, Marina se guia em sua conduta o que a coloca em seu traço característico de personalidade. Mas no “aué” do mundo político-eleitoral pode – sem dúvida – não ser o melhor caminho. Lula já havia percebido isso.

Se para Marina o episódio foi árduo, para Sander surgiu como oportunidade de alavancar-se num cenário além do que habitualmente estava restrito. Pré-candidato a deputado estadual, para ele não poderia ser melhor no que refere-se a projeção enquanto líder de um segmento que cada vez mais mostra a cara e pressiona a sociedade pela adoção de suas reivindicações.

Com isso, Sander costura sua trajetória política sem perder a oportunidade de projeção da imagem. Entre ações, discursos e posicionamentos não se despreza a oportunidade de escalar mais um degrau na ambição pelo topo.

Oportunismo ou não. O que é explicito é a capacidade de aproveitar as situações para construir sua escalada. Configura-se, aos poucos, como uma alternativa de peça no tabuleiro do poder.

Ambicioso, o pragmatismo de suas ações o eleva a uma camada acima. E é para isso que trabalha. Aonde vai parar? Esta é a incógnita.

Imagem retirada da foto original de André Novais/Divulgação

segunda-feira, 29 de março de 2010

De Olho no futuro


Odiado pela oposição e hegemônico em sua base partidária, Luizinho assume a prefeitura com o olho no futuro. Definitivamente, não se trata do vice que assume o Poder “por acaso”. A chegada ao topo da administração é uma escalada articulada passo a passo.

De perfil estrategista, o novo prefeito encaixa-se no rótulo de um obstinado pela política. Os aliados costumam atribuir a característica de alguém que respira política 24 horas. E está aí uma das peças chaves de sua trajetória político-partidária.

Conquistou a incomum hegemonia no PT, partido conhecido pelas suas fragmentações e fervorosas disputas internas, devido ao amplo leque de correntes ideológicas que abriga.

A capacidade de articulação e de definir estratégias também se revela no outro lado da moeda. É o alvo preferencial do ódio e da preocupação dos adversários que têm nele uma ameaça de perpetuar-se no Poder.

O fato é que 30 de março não será somente a data em que assume oficialmente como prefeito, mas a largada para 2012. Candidato natural, apostará todas as suas fichas na consolidação de seus projetos e na construção de uma imagem positiva junto aos eleitores.

Se os adversários o têm como um futuro candidato sem o mesmo potencial de votos de Pompilio é bom que não cristalizem este pensamento. O perfil estrategista revela um político meticuloso capaz de trabalhar sistematicamente suas deficiências e colher os frutos na dormência de adversários que não têm – digamos - a mesma paciência diante dos detalhes.

As eleições de outubro serão cruciais para os projetos políticos do petista. Unidos em torno de um único projeto político, Luizinho e Pompilio formam uma dupla que atuam em coordenação constante. O passo de um reflete no do segundo.

Uma vitória de Pompilio poderá significar irremediavelmente numa composição de força que poderá empurrar o PT para o terceiro mandato. A definição da presidência da República e do Palácio da Liberdade também são peças deste jogo de xadrez. Todo detalhe é válido para decifrar o melhor lance.
É por isso que os adversários políticos fazem “figa” contra qualquer movimento petista. Sabem que o perigo é real e manifesta-se a cada jogada no tabuleiro. E a cada jogada, os olhos atentos se fixam num futuro que tem data definida: 2012.

terça-feira, 9 de março de 2010

O dever de fiscalizar


O dever de fiscalizar é a incumbência primordial do Poder Legislativo e o que o justifica como poder autônomo. Tal ação não deve estar submetida a interesses partidários e de grupos a fim que se intensifique ou se omita a esta função.

Ao aprovar o projeto de Lei que permite o Executivo selecionar empresas a serem beneficiadas com infra-estrutura e mão-de-obra do município, a Câmara abre mão de um instrumento importante no processo de “vigilância” da aplicação do recurso público.

Não que se presuma antecipadamente qualquer ato de má fé, mas ao Legislativo não cabe a prerrogativa de deixar escapar por mãos qualquer mecanismo de controle das ações do Executivo, desde que não o engesse. Afinal, a independência – caracterizada pela ação fiscalizadora – é o que sustenta a própria existência de poderes distintos.

Ao delegar amplos poderes ao Executivo para que possa definir os critérios de seleção de empresas sem que estes, ao menos, sejam informados ao Legislativo, os legisladores mostram-se ausentes alheios a função primordial.

A geração de empregos é uma meta a ser perseguida por qualquer gestor público responsável e comprometido com a sociedade que lhe delegou poderes. Ao propor ações de incentivo a implantação de novas unidades geradoras de renda, o Governo cumpre sua missão: a de gerar renda.

Entretanto, o que se discute não é a iniciativa de legalizar mecanismos de incentivo a geração de emprego, mas sim a implementação de caminhos que dispensam a fiscalização sistemática. É esta estrutura de fiscalização minuciosa que garante a essência da independência entre os Poderes e a consequente vigilância entre os Poderes.


Ao abrir mão desta prerrogativa, o Legislativo deixa de exercer uma ação primordial que garante o regime democrático. E enfraquece a sua própria imagem enquanto poder autônomo, justificado por um orçamento anual superior a R$ 4 milhões.